Embora o Rio de Janeiro tenha sofrido, durante décadas, esvaziamento econômico, um pequeno grupo começa a implicar com a simples presença de navios ancorados em frente às praias de Ipanema e Leblon – sem levar em conta que navios representam comércio, emprego e receita. Há alguns meses, o colunista Ancelmo Góes já antecipava o – falso – “perigo” de se ver navios em meio à paisagem e, no último dia 1º reportagem de O Globo, de Ana Cláudia Costa, deu destaque a moradores e líderes ditos ecologistas que se mostraram “preocupados” com navios no mar, “enfeiando” a paisagem de quem se deleita andando ou correndo na orla marítima.
Trata-se de atitude insana, pois um país só pode prover boa situação social se por tiver atividade econômica que lhe dê amparo. O Sindicato dos Agentes Marítimos (Sinda Rio) é a favor da plena ativação do Porto do Rio e considera ridículo que simples passantes queiram evitar ver navios no horizonte.
O Rio não dispõe de agricultura; seu comércio e indústria são bem mais fracos do que o vizinho São Paulo. Nas últimas décadas, centenas de bancos e indústrias migraram do Rio para São Paulo, em virtude da fraqueza do cenário fluminense. A região é recordista nacional em favelamento.
Mais recentemente, a descoberta de petróleo deu novo alento ao Rio, permitindo reativação da construção naval, fortalecimento de indústrias químicas – o complexo de Itaboraí foi apequenado, mas mesmo assim será um pólo de riqueza – e o porto do Rio, que andou com teias de aranha, ressurge, junto com o porto de Itaguaí. Nesse momento, em que o Rio mais precisa de investimentos e emprego, surge uma campanha contra a “feiúra” dos navios. É um absurdo que precisa ser cortado pela raiz. Fontes da Diretoria de Portos e Costas da Marinha consideram a alegada aversão a navios como simples falta de informação. Técnicos do setor comentam que parte da grandeza de São Paulo se deve a Santos, porto tão importante que atrai cargas do Centro-Oeste e até do Sul e do Nordeste. Como recebe mais navios, gera mais opções de embarque aos exportadores, que não se importam de fazer a carga cruzar o país de caminhão. Os números do porto do Rio não se comparam aos de Santos e, mesmo assim, o porto carioca não só gera milhares de empregos como é contribui com bilhões para a receita do Estado e da cidade. Minas – que não tem porto – quando exporta carros Fiat, gera serviços no Rio; quando Minas importa qualquer produto, deixa parte do ICMS nos cofres fluminenses; isso é até um pouco injusto, pois trata-se de importações destinadas a outro estado, mas a lei manda que parte do tributo fique no estado do porto de entrada.
No caso recente, houve um agravante, pois, para realizar uma regata, as autoridades foram obrigadas a limitar o acesso de navios ao porto. Mas, com ou sem regata, não se pode permitir que inocentes úteis queiram afastar do Rio as riquezas trazidas pela navegação, atividade responsável por mais de 95% do comércio exterior do país. Nos Estados Unidos, o portos lutam por cargas de forma incessante, não raro, oferecendo subsídios a quem trocar Miami por Jacksonville. Na Europa, a França acaba de reclamar que Alemanha e Holanda estão dando estímulos por baixo do pano para atrair cargas para seus portos. Só o Rio de Janeiro não quer cargas – e impostos no seu cofre – para que a paisagem fique intocada? Mas só o Rio de Janeiro não pode admitir navios inertes em sua costa? Por que os que reclamam dos navios não concentram sua atenção no céu e mar ou nos corpos sarados que desfilam pela orla? A verdade é que a maior poluição é a pobreza e uma região sem empregos estará condenada ao fracasso. Com desemprego, haverá mais gente vendo paisagem intocada no Leblon e Ipanema…ou dando milho aos pombos.