Mesmo num cenário futuro de recuperação da economia, pós-pandemia, o setor aeroportuário dificilmente retornará no início de 2021 aos níveis de atividade do começo deste ano, projeta Alexandre Monteiro, presidente da concessionária que administra o Aeroporto Internacional Tom Jobim, no Rio de Janeiro. Recém empossado no cargo, o engenheiro metalúrgico estima que as restrições ao transporte aéreo impostas para conter o avanço do coronavírus derrubem para praticamente zero a receita da RIOgaleão em abril.
Para tentar reduzir o estresse financeiro ao qual a companhia será submetida nos próximos meses, a concessionária – controlada pela Changi Airports International, de Cingapura – solicitou ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) a suspensão por seis meses das amortizações dos juros e do principal (valor financiado) do empréstimo de R$ 1,65 bilhão contraído pela RIOgaleão. De acordo com Monteiro, já foram pagos ao BNDES quase R$ 300 milhões e resta R$ 1,35 bilhão a ser amortizado.
O executivo afirma que, mesmo com a redução gerada pelos serviços do aeroporto, a concessionária tem uma posição de caixa que permite a manutenção dos empregos de seus 750 funcionários. Parte do esforço para garantir a folha de pagamento passa por um corte de 15% nos salários de todos os diretores e gerentes da empresa, inclusive o próprio Monteiro.
Com a readequação da malha aérea nacional, divulgada pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), o movimento diário estará restrito até o fim de abril a três voos (pousos e decolagens) entre o Galeão e o Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo. A diminuição do tráfego de passageiros afeta diretamente o transporte de carga, uma vez que 90% a 95% das mercadorias transportadas por via aérea são acomodadas na “barriga” dos aviões de passageiros, em voos comerciais.
A movimentação de carga já caiu 60% em relação ao patamar considerado habitual, mesmo com o aumento no número de aviões-cargueiros no aeroporto, destaca o novo presidente da concessionária.
O caixa atual possibilitaria à RIOgaleão manter suas operações por quatro a cinco meses mesmo num cenário hipotético – e totalmente improvável, ressalta o executivo – de as receitas continuarem zeradas.
“Acredito que a partir de maio a gente comece a ver alguma volta dos voos de passageiros. E a partir daí, as coisas devem subir paulatinamente em junho e julho” sustenta Monteiro, acrescentando que ainda é muito difícil fazer previsões sobre o prazo necessário para superar a pandemia.
Apesar de se dizer “otimista”, ele frisa que a crise pode durar mais que o esperado para os setores aéreo e aeroportuário. Isso porque, além do temor de contaminação pela covid-19, que deve perdurar por algum tempo mesmo após a infecção ser contida, o transporte de passageiros e cargas deve perder força na esteira da desaceleração econômica e do aumento do desemprego.
“Não é em três meses que voltamos ao cenário anterior”, diz o executivo, que substituiu o engenheiro civil Luiz Rocha, veterano com mais de 40 anos de profissão, no comando da empresa. “No início de 2021 não vamos estar no mesmo patamar em que estávamos entre o fim de 2019 e o começo de 2020”, compara Monteiro.
O pagamento das contribuições fixas e variáveis previstas para 2020 nos contratos de concessões aeroportuárias será alterado, com a possibilidade de quitação até o dia 18 de dezembro, conforme cronograma publicado pelo Ministério da Infraestrutura.
Com relação ao parcela de R$ 1 bilhão que a RIOgaleão terá de quitar em maio de 2023, referente à outorga do aeroporto, Monteiro diz que “por enquanto” está mantido o pagamento e não há negociação em curso com a União para postergá-lo. “O governo está claramente entendendo que estamos no momento com uma crise bastante profunda”, ressalta ele, que foi diretor financeiro e vice-presidente da RIOgaleão .
Fonte: Valor Econômico