A Ryanair deverá comprar pelo menos cem dos aviões de próxima geração da Boeing para percursos curtos, com 200 lugares. O negócio envolverá US$ 11 bilhões e, segundo insiste a maior companhia aérea de baixo custo da Europa, “mudará o jogo”.
A transação, anunciada ontem, coroa anos de esforços de Michael O’Leary, o principal executivo da Ryanair, para convencer a fabricante americana de aeronaves a ampliar seu jato de passageiros mais vendido de um só corredor, para além de 189 poltronas.
A encomenda de cem aviões Boeing 737 Max – com opção de pedir mais cem desses jatos – sinaliza a determinação de O’Leary de manter a expansão da Ryanair, apesar de registrar a primeira queda de lucros dos últimos cinco anos em 2013-14. No ano passado ele prometeu uma mudança revolucionária em seu tão criticado serviço ao cliente.
O novo avião – a ser entregue entre 2019 e 2023 – é parte do plano de elevar a frota da Ryanair das atuais 308 aeronaves para 520 até 2024 e de aumentar o número de passageiros de 80 milhões para 150 milhões no mesmo perãodo. “[O negócio] vai marcar uma mudança de fase na eficiência da Ryanair”, disse O’Leary. “Significa que vamos continuar crescendo muito rapidamente na Europa.”
A Ryanair se prepara atualmente para receber os primeiros dos 175 aparelhos da atual geração 737 de curto percurso da Boeing – chamados 737-800 -, encomendados em março de 2013. Os aviões desse contrato comportam 189 passageiros cada, comparativamente aos 180 transportados pelo maior jato A320 de curto percurso da Airbus, a principal concorrente internacional da Boeing.
A Ryanair pretende acomodar 197 passageiros em cada um dos aviões 737 Max pelo reaproveitamento do espaço das cozinhas que a companhia aérea deixa ocioso. Os cem jatos 737 Max custam cerca de US$ 11 bilhões em preços de catálogo, em relação aos quais as companhias aéreas normalmente negociam grandes abatimentos.
O’Leary disse que está pagando um “ligeiro ágio” por assento, mas que a capacidade para oito passageiros adicionais implica que cada jato gerará US$ 1 milhão a mais em receita por ano, o que justificaria o preço.
O 737 Max é projetado para conquistar economias de combustível de 20%, comparativamente às aeronaves atuais, em grande medida graças ao seu motor Leap da CFM, uma joint-venture entre a americana General Electric e a francesa Snecma.
As melhorias devem instaurar uma nova série de guerras de preços entre as companhias aéreas na Europa, previu O’Leary. “A exemplo das velhas guerras de preços, a Ryanair vai sair vitoriosa”, disse.
A Ryanair foi uma cliente dedicada da Boeing durante a expansão vertiginosa que a tornou a maior companhia de baixo custo da Europa. O’Leary disse que a havia falado com a Airbus sobre a possibilidade de uma versão de maior capacidade do A320, mas que a fabricante europeia não se esforçou nessa direção, provavelmente por saber da grande proximidade da Ryanair com a Boeing.
Conner disse que a Boeing prevê que as companhias aéreas de baixo custo responderão por 35% da oferta dos aviões de cabine estreita até 2033. Ele se recusou a revelar quais outras empresas poderão encomendar a versão de 200 assentos, mas disse que é a alternativa “perfeita” para qualquer uma que tenta transportar grande número de passageiros na configuração de classe exclusivamente econômica.
Durante seu rápido crescimento, a Ryanair teve problemas com a sua imagem – era vista como companhia focada apenas em custo, em detrimento do atendimento. A empresa tentou combater essa percepção com a investida para atrair clientes de classe executiva. O’Leary disse que os clientes estariam mais confortáveis no novo avião porque poltronas novas, mais delgadas, oferecerão mais espaço para as pernas. A empresa pretende assumir rotas que rivais como a italiana Alitalia e a escandinava SAS estão abandonando.
Oliver Sleath, analista do Barclays, qualificou a encomenda da Ryanair como parte de uma “guinada estratégica”. “Paralelamente às melhorias do serviço ao cliente, a Ryanair incorpora cada vez mais rotas convencionais, para aeroportos maiores… E tira mais diretamente passageiros das aéreas tradicionais.”