A indústria automobilística tornou-se um dos segmentos de maior dinamismo nas relações econômicas entre Brasil e China. Impulsionada inicialmente pelo crescimento das importações de veículos elétricos e híbridos, a presença chinesa no mercado brasileiro vem se ampliando para abranger produção local, investimentos industriais, pesquisa e desenvolvimento e novas tecnologias de mobilidade.
Em 2025, a China consolidou-se como a principal origem dos veículos eletrificados importados pelo Brasil, correspondendo por 81% das compras externas de híbridos e 85% das de veículos elétricos, segundo dados levantados pelo Conselho Empresarial Brasil – China (CEBC). Os modelos eletrificados representaram, ainda, 94% das importações brasileiras de automóveis chineses, enquanto seis das dez marcas com maiores vendas nessa categoria no país eram chinesas. Essa expansão permaneceu acelerada em 2026. Segundo dados da Fecomércio Paraná, no primeiro semestre, o valor das importações brasileiras de veículos elétricos e híbridos provenientes da China alcançou US$ 2,56 bilhões, ante US$ 637,8 milhões no mesmo período de 2025.
Por outro lado, os indicadores mostram também uma expansão da produção automobilística brasileira. Segundo dados da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), o país produziu 271,2 mil veículos em agosto de 2026, crescimento de 9,4% em relação ao mesmo mês de 2025. Entre janeiro e agosto, foram produzidos aproximadamente 1,9 milhão de veículos, 8,5% acima do resultado registrado no mesmo período do ano anterior. Esse cenário ocorre em paralelo ao avanço dos veículos importados e à progressiva instalação, no Brasil, de estruturas produtivas vinculadas a fabricantes chinesas.
Nesse processo, a relação entre política industrial e investimento estrangeiro ganhou relevância. O Programa Nacional de Mobilidade Verde e Inovação (MOVER), instituído pela Lei nº 14.902/2024, estabeleceu incentivos vinculados, entre outros fatores, a investimentos em pesquisa, desenvolvimento tecnológico e mobilidade de baixo carbono. Paralelamente, o Brasil promoveu a recomposição gradual das tarifas de importação incidentes sobre veículos eletrificados, apesar de ainda existir quota de importação para veículos eletrificados nas modalidades desmontada (CKD) e semidesmontada (SKD) até o final de 2026. Esse conjunto de medidas integra uma política voltada a estimular investimentos produtivos e tecnológicos no país, em substituição a uma relação baseada exclusivamente na importação de veículos acabados.
Mais recentemente, a política pública brasileira voltada ao setor automotivo passou a alcançar também o estímulo à renovação da frota. Em setembro de 2026, foi sancionada a lei que assegura a continuidade do Programa Move Brasil, destinado a facilitar o financiamento de veículos novos por motoristas de aplicativo, taxistas, entregadores e outras categorias profissionais. Para taxistas e motoristas de aplicativo, o programa contempla automóveis novos movidos a etanol, flex, elétricos e híbridos, nos quais se qualificam alguns automóveis de fabricantes chinesas, com valor de até R$ 200 mil, oferecendo condições específicas de financiamento e garantias. A iniciativa acrescenta, assim, um instrumento voltado à demanda às políticas industriais já adotadas para o setor, ao combinar renovação da frota, ampliação do acesso a veículos de menor emissão e estímulo ao mercado de automóveis novos.
Os movimentos recentes das fabricantes chinesas refletem essa transformação. Diversas fabricantes estão estabelecendo produção em diferentes cidades pelo país, como Camaçari, na Bahia, Iracemápolis, em São Paulo e Aracruz, no Espírito Santo. Prevê-se, ainda, investimentos na monta de R$ 3,8 bilhões, por uma fabricante chinesa, para a produção de veículos de baixa e zero emissão no Paraná. A expansão, portanto, começa a alcançar diferentes etapas da cadeia automotiva brasileira, com investimentos concretos na indústria nacional.
Mais recentemente, esse movimento avançou também para a área de pesquisa e desenvolvimento. Uma fabricante chinesa de automóveis anunciou investimento de R$ 300 milhões no complexo do Aeroporto Internacional do Galeão, no Rio de Janeiro, para a instalação de uma estrutura dedicada ao desenvolvimento de tecnologias adaptadas às condições brasileiras, incluindo sistemas de direção autônoma. O projeto prevê estudos relacionados às particularidades da infraestrutura, sinalização e condições de circulação existentes no país e acrescenta uma dimensão tecnológica à presença da companhia no mercado brasileiro. A iniciativa também acompanha discussões sobre a necessidade de desenvolvimento de um marco regulatório específico para testes e utilização em maior escala de sistemas autônomos no Brasil.
A expansão internacional das automotoras chinesas ocorre, por sua vez, em um momento de reorganização do setor na própria China. Em setembro, autoridades chinesas divulgaram orientações às fabricantes que atuam no exterior recomendando que suas estratégias comerciais considerem custos e condições locais de oferta e demanda, evitem variações excessivas de preços e preservem a autonomia das concessionárias na definição dos preços finais. As recomendações alcançam também descontos, promoções, financiamento e outros incentivos comerciais e surgem após um período de intensa competição entre fabricantes no mercado doméstico chinês.
O setor automotivo ilustra, assim, uma transformação mais ampla das relações econômicas Brasil – China. À expansão do comércio de veículos eletrificados somam-se agora investimentos em capacidade produtiva, integração às cadeias industriais brasileiras e projetos voltados a pesquisa, inovação e novas tecnologias. O desenvolvimento desse processo deverá manter temas como política industrial, tributação, concorrência, regulação tecnológica e atração de investimentos no centro da agenda bilateral nos próximos anos.