– Um dos maiores grupos industriais do país, o Ultra está avaliando seu portfólio de negócios e mantém conversas com potenciais sócios para pelo menos duas de suas divisões: Ipiranga, a maior do conglomerado, e Ultracargo, apurou o Valor.
Hoje sob a gestão de Marcos Lutz, há um ano na presidência do conselho de administração, a estratégia há algum tempo passou a ser comandar a Ultrapar como uma holding de participações que faz gestão ativa de seu portfólio, seguindo o mesmo caminho do grupo Votorantim, dos Ermírio de Moraes – em franco processo de revisão de seus negócios.
Outro importante movimento dentro do Ultra, ainda de forma discreta, é elevar a participação acionária na Rumo, empresa de infraestrutura ferroviária do grupo Cosan. Lutz, à época principal gestor na empresa de Rubens Ometto, foi o responsável pela estruturação da companhia. A Ultrapar já tem cerca de 5% do negócio por meio de diferentes veículos de investimento.
Fontes ouvidas pelo Valor afirmaram que Lutz tem interesse em ter maior exposição na Rumo e já teria se aproximado da Cosan para conversar sobre o tema. No entanto, há dúvidas se o Ultra estaria disposto a ser apenas um sócio relevante do negócio, cujo valor de mercado está em torno de R$ 31 bilhões. A Cosan não quer abrir mão do controle e estaria disposta a vender de 10% a 15% da companhia, segundo fontes.
Pessoas a par do assunto afirmam que as conversas seguem, mas sem uma decisão no curto prazo. A Cosan está em processo de venda de ativos e tem atraído interesse de companhias rivais, estrangeiras e investidores financeiros.
Em logística, o Ultra já é controlador da Hidrovias do Brasil – o conglomerado entrou na companhia como acionista minoritário, montando posição desde 2023 sem muito alarde.
Esse é um negócio que Lutz entende bem – ele ajudou a criar a divisão de infraestrutura na Cosan. Além do executivo e acionista do Ultra “gostar e conhecer o ativo”, nas palavras de um gestor, a Rumo interessa por causa de sua forte exposição ao agronegócio, um dos principais motores do PIB nacional nos últimos anos.
Energia, ferrovias, infraestrutura e outros setores correlatos ao agronegócio estão na zona de interesse da Ultrapar, que redirecionou sua estratégia após a incursão malsucedida no varejo farmacêutico com a compra da Extrafarma em 2013 – a rede foi vendida quase uma década depois, sem ter entregado os resultados esperados.
Com a crise enfrentada pela Cosan, e a Rumo aparecendo como um dos ativos que podem ser vendidos para contribuir com a desalavancagem do grupo de Rubens Ometto, e com preços descontados em bolsa, a empresa de logística ferroviária tornou-se alvo de potenciais investidores.
Nesse contexto, o Ultra deu um primeiro passo comprando cerca de 5% do negócio por meio de um derivativo (“total return swap”). Coincidentemente, sua chegada ao capital da Hidrovias também foi “discreta” num primeiro momento.
O desafio no caso da Rumo, uma empresa bem maior que Hidrovias, seria o tamanho do cheque. Hoje, a Ultrapar, que vale cerca de R$ 32 bilhões em bolsa, não tem balanço para absorver a aquisição de uma fatia relevante da empresa.
Mas também não está em seus planos ser apenas um investidor financeiro de ativos adquiridos. A intenção do grupo, segundo uma fonte, é levar sua capacidade de gestão aos novos negócios, como aconteceu com a Hidrovias.
A partir da simplificação de sua estrutura de governança e a troca de toda a diretoria, a Hidrovias viu seu resultado antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda) praticamente dobrar no último ano e a leitura, dentro do Ultra, é que ainda haveria mais ganhos pela frente.
No caso da Rumo, observa a mesma fonte, mais de duas dezenas de líderes seniores do Ultra já tiveram passagem por negócios ferroviários, o que seria uma mostra de seu potencial para administrar um ativo nesse segmento.
A solução para acomodar uma potencial aquisição da Rumo viria justamente da venda de ativos pela Ultrapar. Segundo uma fonte, não houve abertura de processo formal de desinvestimento, mas tratativas com interessados estão em curso. Preço, tanto na ponta compradora quanto na ponta vendedora, serão determinantes para o Ultra fechar um novo negócio e não há pressa, nem necessidade de curto prazo, observou.
Principal negócio do grupo em termos de faturamento, a venda de uma parte da distribuidora de combustíveis Ipiranga começou a ser discutida pela primeira vez há cinco anos, quando a companhia estava altamente endividada, segundo fontes. A alta informalidade no setor de combustíveis também foi colocada nesta conta.
Embora não tenha bancos mandatados para negociar a venda de uma fatia ou a saída total do negócio, o grupo tem mantido conversas com eventuais interessados. Mas o setor de distribuição ainda não está em seu melhor momento no país, apesar da redução da informalidade após operações policiais.
Além disso, após um ciclo de investimentos pesados e fortemente alavancada em um momento de alta acelerada dos juros, a concorrente Raízen, joint venture entre Shell e Cosan, passa por complexas dificuldades financeiras e pode ser alvo de potenciais novos investidores.
Esse é um segmento altamente concentrado no país, nas mãos de três grupos principais, com a Vibra (ex-BR Distribuidora) também entre as maiores. O conflito no Oriente Médio pode beneficiar as distribuidoras, já que a guerra tende a diminuir a ação de importadores oportunistas de diesel, reduzindo o suprimento especulativo no mercado, enquanto favorece fornecedoras estruturais.
Mas a guerra também pode trazer novos desafios, como o de fazer com que distribuidoras sigam tabela de preços fixadas pelo governo, caso adiram a subsídios para diminuir o preço final do combustível.
Desde que assumiu o comando do Ultra, Lutz começou a mudar os rumos do conglomerado. O executivo também é acionista minoritário. Ele entrou em 2021, com o apoio de outro importante acionista, o fundo Pátria. Desde abril do ano passado, Rodrigo Pizzinatto é o CEO do conglomerado industrial.
Durante o processo de reestruturação, além de vender a Extrafarma, ativo considerado fora da curva pela companhia que apostava nas sinergias com os postos de combustíveis, o grupo se desfez da Oxiteno, negócio químico que deu origem ao conglomerado.
Do lado do balanço financeiro, a alavancagem confortável dá margem ao Ultra para novas aquisições. Ao fim do quarto trimestre, a dívida líquida era de R$ 12,14 bilhões, equivalente a 1,7 vez o Ebitda em 12 meses. A receita somou R$ 142,5 bilhões no ano passado, alta de 7%, e o lucro líquido, R$ 2,5 bilhões, estável em relação ao ano anterior. Já o Ebitda recorrente subiu 36% no último trimestre de 2025, para R$ 1,75 bilhão, e 15% no acumulado do ano, para R$ 6,7 bilhões.
Procurada, a Ultrapar disse que não comenta o assunto e que informações relevantes serão comunicadas ao mercado. Cosan e Rumo informam que não vão se manifestar sobre o tema.