unitri

Filtrar Por:

< Voltar

Clippings - 30/06/14

Vale oferece desconto no minério de baixo teor

Diante de um mercado mais difícil, com excesso de oferta de minério de ferro, a Vale teria seguido o exemplo de algumas de suas principais concorrentes e oferecido seu produto com um desconto para seus clientes chineses. Segundo apurou o Valor, os preços mais baixos do que o comum teriam sido concedidos exclusivamente para minério com teores mais baixos de ferro.

Analistas disseram ontem que a Vale segue a iniciativa de suas concorrentes australianas. Mas acreditam que o desconto é pontual e não significa uma mudança de estratégia da companhia.

O diretor-executivo de ferrosos e estratégia da Vale, José Carlos Martins, disse ao Valor que a empresa está “apenas acompanhando os preços de mercado”. Mas Martins preferiu não falar em desconto: “Como não existe tabela de preços, não existe desconto”, afirmou. A Vale tem vendido grande parte de seu minério de ferro no mercado à vista. Martins confirmou que a notícia que circulou no mercado se refere a minério de ferro de menor qualidade.

A Vale não costuma dar descontos nas vendas de minério com qualidade superior, como é o caso do extraído das minas de Carajás, no Pará, que contém 62% ou mais de ferro em sua composição, diz a analista Melinda Moore, do Standard Bank. A mineradora brasileira se destaca no mercado justamente por seu minério de qualidade superior. A companhia não informa quanto de suas vendas são do produto de alto teor, mas pode-se estimar um mínimo de 45%, já que no ano passado a Vale exportou 271 milhões de toneladas, sendo que 110 milhões foram extraídas de Carajás.

Segundo o chefe de análise de commodities de um banco de Londres, a empresa ofereceu minério com teor de 57% de ferro a um preço 17% inferior ao de costume. Outros analistas falam em um desconto menos agressivo, de US$ 2,50 por tonelada. As empresas não abrem seus preços, mas segundo levantamento do Standard Bank, o minério com essa concentração tem sido negociado entre US$ 74 e US$ 78 por tonelada no mercado da China. Nesses casos, as siderúrgicas precisam fazer um blend (mistura) com minérios de maior qualidade para a produção do aço.

Para os analistas, as reduções nos preços que estão sendo oferecidas pelas mineradoras globais, a começar pelas australianas [ BHP e Rio Tinto ] e agora pela Vale, refletem uma situação de desequilíbrio entre oferta e demanda de minério de ferro. Há mais oferta do que procura pelo produto, sobretudo no mercado chinês, o grande consumidor mundial da commodity, o que tem contribuído para reduzir os preços.

Nas contas do Goldman Sachs, o mercado terá um excedente de 72 milhões de toneladas de minério de ferro neste ano e de 175 milhões no ano que vem, bem acima das 14 milhões de toneladas no ano passado.

Em relação ao desequilíbrio entre oferta e demanda, Martins comentou: “Quanto ao desbalanceamento do mercado, ele realmente existe para quem não é competitivo. O mercado internacional de minério neste ano deve crescer pelo menos 10% sobre o ano passado. A mensagem é: “quem não tem custo nem competência não se estabeleça”.

Pedro Galdi, da corretora SLW, afirmou que mesmo com o preço a US$ 95 por tonelada, a Vale garante uma margem boa, ainda que conceda um desconto na faixa de US$ 2,5 por tonelada de minério de menor qualidade. O custo atual de produção da companhia está próximo de US$ 28 por tonelada, segundo analistas do Morgan Stanley. Galdi fala em um custo de US$ 20 a US$ 25 por tonelada.

Já no minério de maior qualidade, a companhia poderá conseguir um prêmio de até US$ 10 por tonelada no longo prazo, na estimativa de analistas do BTG Pactual. Em relatório recente, eles destacam que embora a Vale tenha reservas provadas de minério com teor de concentração de 66,7% de ferro em Carajás, não tem conseguido monetizar essa vantagem. Eles acreditam que preocupações ambientais devem resultar em valores mais altos para materiais de maior qualidade de agora em diante.

Um analista de Nova York que acompanha a Vale disse ontem que a concessão de descontos nos preços do minério de ferro preocupa investidores justamente por mostrar que há mais oferta do que demanda no mercado. Essa foi, segundo ele, a notícia ruim do dia, ontem, mas terminou compensada pela alta do preço da commodity no mercado à vista da China, que subiu 1,7% e atingiu US$ 95,3 por tonelada (para 62% de ferro).

Na BM&FBovespa, as ações da Vale foram impulsionadas ontem pela melhora do preço da commodity. Os papéis preferenciais subiram 2,16%, a R$ 26,38, e os ordinários, 2,37%, a R$ 29,34, enquanto o Ibovespa avançou apenas 0,15%.

A alta da cotação da matéria-prima do aço se relacionou, de acordo com o analista, com notícias de estímulo à economia por parte de algumas regiões da China, o que demonstra que o governo está preocupado em não deixar cair o ritmo de crescimento, disse o analista. Desde que atingiu a mínima do ano, de US$ 89 por tonelada, em 16 de junho, o preço vem subindo. Até ontem, acumulava uma valorização de 7% em dez dias.

Na opinião de Galdi, quando o nível dos estoques de minério de ferro na China se normalizar, os preços devem voltar para o patamar dos US$ 100 por tonelada. Ele acrescenta que a queda do preço do minério de ferro este ano – de 29% – está ligada, em parte, à venda de estoques chineses a preços baixos. Carsten Menke, analista de commodities do banco suíço Julius Baer, diz que o volume estocado na China está em torno de 112 milhões de toneladas.