A votação da oposição, de 48,36%, ante o poderio da máquina estatal, mostra que há muita coisa errada em Brasília. Lula foi reeleito mesmo após o mensalão e Dilma consegue o mesmo ante denúncias comprovadas de corrupção na Petrobras – admitidas pelo todo-poderoso ex-diretor Paulo Roberto Costa. Para o Brasil, teria sido bom ver renovação, sob o comando de Aécio Neves.
Na “beira da praia”, no entanto, parece haver alívio. regozijo com a continuidade, principalmente de parte dos estaleiros. Em 2003, quando Lula assumiu, havia 2 mil empregados nos estaleiros, que hoje são 88 mil, diretos. A construção naval tem mais de 300 obras contratadas e muito mais por vir. Quanto à navegação, o programa “Navega Brasil”, da Transpetro, na era FHC era chamado de “Naufraga Brasil”, pois não implicou sequer uma encomenda interna e gerou importação de dois navios. Já com o PT, a Transpetro anunciou compra de 49 navios no mercado interno e resta contratar apenas três unidades. Se o mercado financeiro está preocupado, na “Beira da Praia” devem estar sendo abertas garrafas de champanha, principalmente nos estaleiros. As empresas de navegação têm projeto de apoio à cabotagem, o Pró-Cabotagem, parado em um das gavetas do Palácio do Planalto e a euforia não deve ter sido tão intensa. Um setor da navegação se beneficia da política do PT para a área: os barcos de apoio. O regime atual estimula empresas brasileiras a ampliarem suas frotas de supply-boats.
Se há algo a se elogiar na vencedora Dilma, esta foi sua postura conciliadora no discurso da vitória. Em vez de massacrar os derrotados com o vermelho estridente do PT, ela e Lula apareceram de branco. Em seu discurso, ao falar em mudança, Dilma parece ter admitido que não fez um bom governo. Deu sinais de que, em vez de brigar diariamente com o mercado, quer agir de forma menos autoritária, de agora até 2018.
Dois exemplos claros da intolerância da gestão Dilma estão nas MPs dos portos e da energia elétrica. Nos portos, houve reações, denúncias de corrupção feitas por deputados da base governista, mas a presidente impôs uma lei de baixo para cima. O Senado recebeu o texto às 11h do último dia e aprovou a MP antes das 16h, gerando o seguinte comentário de Cristóvam Buarque: “ O Senado está de joelhos”. No caso da fatídica MP 579, o setor elétrico em peso apontou erros e distorções, mas a presidente, como se fosse um general dando ordem a um sentinela, seguiu em frente. Hoje, o setor, também pressionado pelo sobrecusto da geração térmica, está em forte crise, com tarifas altas, passivo preocupante e inúmeras ações na justiça. Essa é a Dilma que 48,36% dos brasileiros não querem de volta.
Agora, chegou a hora da verdade. São esperados aumentos para energia elétrica e combustíveis – apesar da queda do preço internacional; se o governo continuar a segurar o dólar, terá ajuda para combater a inflação, mas vai dar continuidade ao esmagamento da indústria. As contas internacionais estão no buraco e a dívida pública não pode ser elevada indefinidamente. Dilma terá de manter sua política popular, mas, se não apertar os cintos, as contas nacionais continuarão em desalinho.
A bandeira branca hasteada por Dilma e Lula no discurso da vitória obedece a uma lógica. Os eleitores anti-PT de São Paulo, de todo o Sul, da área do agronegócio – e até mesmo da capital fluminense, onde a vitória do PT foi pequena – têm maior poder de fogo do que o pessoal do Norte-Nordeste. Será mais fácil governar sem hostilizar essa pessoal de alto nível intelectual e financeiro, que inclui os agentes do mercado.