O fluxo líquido de investimento direto no país (IDP) surpreendeu mais uma vez em novembro, alcançando US$ 8,8 bilhões, o que elevou o total acumulado em 12 meses para US$ 78,9 bilhões. Esse volume equivale a 4,38% do PIB, ou quase quatro vezes o déficit em conta corrente acumulado no perãodo, de 1,12% do PIB, como destacaram os economistas do Bradesco. No mês passado, as operações de participação no capital no setor de extração de petróleo e gás natural ficaram em US$ 1,37 bilhão, o principal destaque por atividade econômica.
Os números deixam clara a redução significativa da vulnerabilidade externa do país. O IDP supera de longe o rombo na conta corrente, que passou a recuar com força desde o segundo trimestre de 2015. Nos 12 meses até março do ano passado, o déficit nas transações de bens, serviços e rendas com o exterior era de 4,4% do PIB, ou quase US$ 102 bilhões. O encolhimento desse buraco se deveu em grande parte ao tombo das importações, num quadro de recessão. De janeiro a novembro, o déficit em conta corrente ficou em US$ 17,8 bilhões, 68% a menos do que o registrado em igual perãodo do ano passado.
Já o volume de investimentos estrangeiros para atividades produtivas segue elevado. Em novembro, as operações de participação no capital no IDP chamaram a atenção, por somarem o equivalente a US$ 6,9 bilhões, segundo o Bradesco.
Foi um número bem acima dos US$ 4 bilhões do mesmo mês do ano passado, ressaltou o banco.
“Em suma, os dados divulgados reforçam a continuidade do ajuste das contas externas”, dizem os economistas do Bradesco, em relatório. “Tendo em vista que a recuperação da atividade tem se mostrado mais lenta, acreditamos que a elevação do déficit externo também será prorrogada. Assim, esperamos que o déficit em 2017 ainda continuará em torno de 1% do PIB, sendo facilmente financiado pelos ingressos de IDP.” Depois do recuo do PIB no terceiro trimestre, de 0,8% em relação ao trimestre anterior, feito o ajuste sazonal, o Bradesco reduziu a projeção de crescimento para 2017 de 1% para 0,3%.
De janeiro a novembro, o volume de investimento direto somou US$ 63,7 bilhões, 6,3% a mais do que no mesmo perãodo de 2015. Um ponto importante é que, no acumulado do ano, houve um aumento considerável dos lucros reinvestidos e do fluxo líquido dos empréstimos das filiais no exterior para as matrizes no Brasil. Esse movimento foi identificado pelos economistas do Credit Suisse quando analisaram os resultados do setor externo no primeiro semestre, ajudando a explicar o comportamento do IDP ao longo do ano.
De janeiro a novembro, os lucros reinvestidos totalizaram US$ 8,1 bilhões, uma alta de 41% sobre o mesmo perãodo do ano passado. Já os créditos das filiais no exterior para as matrizes no Brasil superaram as amortizações desses recursos em US$ 12,4 bilhões de janeiro a novembro de 2016. Nesse mesmo intervalo do ano passado, esse montante ficou em US$ 7,5
bilhões. Num cenário de crise, as filiais auxiliaram as sedes no país.
Em novembro, contudo, os recursos para participação no capital que não incluem os lucros reinvestidos tiveram mais peso,
contribuindo mais para o alto volume de investimentos diretos no mês. Para a Rosenberg Associados, o IDP segue elevado, mostrando-se resistente, “o que demonstra apetite externo por investimentos no Brasil, apesar das crises econômica e política”.
Já os investimentos em carteira tiveram saldo negativo em novembro, de US$ 839 milhões, dos quais US$ 1,03 bilhão na renda fixa. De janeiro a novembro, as saídas desses títulos ultrapassaram as entradas em US$ 27,4 bilhões.
Segundo a MCM Consultores Associados, “as saídas expressivas de capitais do mercado de renda fixa estão relacionadas com a perda do grau de investimento do Brasil”. A questão é que muitos investidores estrangeiros não podem aplicar em títulos soberanos que não tenham essa classificação de risco conferida por pelo menos duas agências de rating, diz a MCM.
Fonte: Valor Econômico