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Clippings - 19/07/22

Zelensky teria pedido apoio ao Brasil para retomar exportações de grãos

 

Carregamento de trigo (Arquivo/Divulgação)

Conversa do presidente ucraniano com Bolsonaro, ao telefone, ocorreu dias após anúncio de que o Brasil pode começar a receber óleo diesel da Rússia, em até 60 dias

O presidente Jair Bolsonaro (PL), conversou por telefone com o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, nesta segunda-feira (18), cinco meses depois de sua visita presencial à Rússia, quando encontrou o presidente Vladimir Putin, antes do início da guerra entre os dois países do leste europeu, em 24 de fevereiro. Sem divulgar o conteúdo do diálogo de hoje, Bolsonaro já havia avisado sobre a ligação no domingo (17), em entrevista concedida do lado de fora do Palácio da Alvorada.

“Vou conversar bastante com ele. É uma liderança e vou dar minha opinião para ele. Essa guerra tem causado transtorno não só para o Brasil – Brasil menos. É muito mais para a Europa”, declarou o presidente brasileiro, conforme publicado pelo site Congresso em Foco. Em sua conta no Twitter, depois da conversa com Bolsonaro, Zelensky escreveu: “Eu o informei sobre a situação no front. Discutimos a importância de retomar as exportações de grãos ucranianos, para evitar uma crise alimentar global provocada pela Rússia”, postou.

O diálogo ocorreu poucos dias após o governo federal anunciar que o Brasil pode começar a receber óleo diesel da Rússia, em até 60 dias. Na visão de Leonardo Paz, analista de inteligência qualitativa no Núcleo de Prospecção e Inteligência Internacional da Fundação Getúlio Vargas (FGV/NPII), é difícil saber se essas duas situações estão relacionadas.

“O governo brasileiro não vai deixar transparecer nada nesse sentido, até porque nem faria sentido. Obviamente, a ligação do Zelensky já estava marcada há algum tempo e a negociação entre Rússia e Brasil, para receber esse óleo, também”, resumiu o analista à Portos e Navios.

Paz acredita que a demora da ligação do presidente ucraniano — algumas agências relataram que foi Bolsonaro quem ligou para Zelensky — se deve mais ao fato de que o Brasil tem pouca capacidade de interferência no conflito, inclusive, de mudar a postura da Rússia, de influenciá-la de maneira ou outra, em torno de seus objetivos. “Quem tem capacidade para fazer isso são outros países ocidentais, como os Estados Unidos, e talvez a China [na Ásia], além dos próprios europeus”, salientou.

“Acredito que, agora, o Zelensky esteja tentando conversar com certos países, e não só com o Brasil, que estavam mais ou menos gravitando na órbita de influência da Rússia e vinham tentando ficar um pouco fora dessa situação, tentando não se comprometer com nenhum dos lados. Agora, ele está tentando virar essa chave, conversando com países que estavam um pouco mais ao lado da Rússia, tentando trazê-los para seu lado”, comentou Paz, destacando que os norte-americanos apoiam os ucranianos, desde o início.

Conforme Paz, nos últimos cenários de conflitos e/ou de guerras dos últimos 50 anos, o Brasil – via Itamaraty – sempre manteve uma postura tradicional, que é a de condenar qualquer tipo de violência e conclamar que as partes envolvidas cessem as hostilidades e voltem às negociações de paz.

“Não há nada de novo nessa postura, que é institucional. Ao preservar sua relação [comercial] com a Rússia, por exemplo, o Brasil também mantém outras relações, como é o caso da China e da Índia [que posicionaram ao lado dos russos]”, ressaltou o analista da FGV.

Agronegócio
Ao comentar sobre a última reunião do grupo econômico Brics – do qual o Brasil faz parte ao lado da Rússia, Índia, China e África do Sul –, realizada no dia 23 de junho, o Ministério das Relações Exteriores (MRE) voltou a reforçar, por meio de nota, que o governo federal “defendeu a solução pacífica e negociada do conflito” entre ucranianos e russos.

Desde o início da guerra, tratada como “conflito” pelo MRE, o governo brasileiro tem evitado tecer críticas ao presidente da Rússia, Vladimir Putin, por conta das relações comerciais entre os dois países, principalmente porque os russos são importantes exportadores de fertilizantes usados pelo agronegócio do Brasil.

Na visão do especialista em agronegócios Carlos Cogo, sócio-diretor da Cogo Inteligência em Agronegócio, o maior interesse do Brasil gira, exatamente, em torno das importações de fertilizantes, sendo que o país já assegurou 65% desses insumos necessários para a agricultura daqui e que serão destinados à safra 2022/2023.

“As importações da Rússia cresceram 5% no primeiro semestre e o fluxo de entrada está normalizado. Os fertilizantes não estão sob sanções. Na prática, a Ucrânia é autossuficiente em agro e importa daqui, praticamente, amendoim e outros poucos itens. Fora que a Ucrânia é um concorrente do Brasil no mercado global de grãos”, disse o especialista, à reportagem.

Ele enfatizou que o Brasil tem um histórico de boas relações com todos os países. “Exportamos produtos Halal para países muçulmanos e Kosher, para judeus, mediante os preceitos deles. Exportamos commodities agrícolas para 162 países. A ideia sempre foi não criar rusgas externas em termos de comércio agrícola”, comentou.

Zelensky vem buscando o apoio de líderes globais para conseguir desbloquear as exportações de grãos na Ucrânia, considerando que a maior parte da produção está parada em portos e sob controle dos russos. Os produtos também não têm conseguido transporte até os terminais portuários, por conta do cenário de bloqueios nas estradas de algumas regiões de seu país.

Na semana passada, representantes da Rússia, Ucrânia e da Organização das Nações Unidas (ONU) se encontraram em Istambul, na Turquia, para tentar destravar as negociações sobre as exportações. Houve uma premissa entre as partes, no entanto, conforme publicação da Agência Safras, o acordo sobre as exportações de grãos da Ucrânia não deve levar à retomada das negociações entre Rússia e Ucrânia, de acordo com o parlamentar Leonid Slustky, que participou das conversas de paz em Kiev, no passado. A proposta russa para os grãos foi amplamente apoiada pelos envolvidos nas conversas desta semana e um acordo pode estar próximo.

* Com informações da Agência Safras e outras agências nacionais

Fonte: Revista Portos e Navios